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Crônicas

A Sobrevivência dos Vaga-lumes, de Georges Didi-Huberman

Não sei bem quando foi que alguém me fez reparar pela primeira vez.

“Voce percebeu? Os vaga-lumes estao sumindo”,

Tendo passado a maior parte da minha vida sob as luzes duras da cidade, o sutil piscar dos bichinhos nunca fez parte do meu cotidiano. Ainda assim, como se fosse algo óbvio, percebi que o autor da frase tinha razão. Nem nas idas ao sítio, nem nas estradas à noite: faz tempo que não os vejo.

O desaparecimento dos vaga-lumes é, claro, uma consequência da ação humana. A poluição luminosa das cidades tornou inviável a vida desses insetos, invadiu seu habitat e ofuscou seu brilho, impedindo-os de chamar a atenção de um parceiro diante da claridade brutal e infindável das lâmpadas, interrompendo seus ciclos. Os que restaram foram se esconder nos mesmos lugares que as abelhas, borboletas e mariposas: bem longe de nós.

Eu não sou de ler filosofia, mas desde o dia em que trombei com o livro Sobrevivência dos Vaga-lumes, de Georges Didi-Huberman, em uma oficina de escrita, não descansei até chegar à última página. Nele, o autor se propõe a analisar a obra de Pasolini, cineasta e escritor italiano com quem eu também não tinha a menor intimidade.

Pasolini percebeu muitos anos antes de mim que os vaga-lumes estavam sumindo. Ele viveu na Europa no auge do nazifascismo. Em uma crônica publicada em 1975, compara a luz ofuscante dos projetores da propaganda fascista com as pequenas luzes de resistência, de arte e beleza, de momentos cheios de humanidade, tão frágeis quanto autênticos, que ele chama de vaga-lumes. Discretos, fugazes, mas insistentes, incansáveis.

Esses momentos de inspiração, de brilho cotidiano, nos lembram que podemos assumir o controle de nossas narrativas, que somos resilientes e criativos. E não podem ser bem observados quando nossa atenção está unicamente atenta aos holofotes espetaculares do sistema e da política.

São luzes tão frágeis quanto os próprios vaga-lumes; como as lagoas de bioluminescência que só brilham fosforescentes em noites de lua nova ou como as estrelas, que embora sejam astros muito maiores que nós a recrutar mundos inóspitos e infinitos para suas órbitas, daqui de onde estamos são apenas luzinhas frágeis, ofuscadas pelos postes de iluminação pública.

Povos astecas acreditavam que a luz dos vaga-lumes sinalizava instantes de perspicácia e de conhecimento, uma ação combativa onde antes havia a escuridão. Na obra de Pasolini, os vaga-lumes aparecem como personagens “‘erráticos, intocáveis e resistentes’ em momentos de alegria e furor” (Didi-Huberman, 2011), resistindo ao mundo opressor no qual viviam.

As luzes, quando emitidas pelos astros ou pelos corpos, tem algo de mágico e impossível que nos fazem perguntar como pode ser tão fantástica a natureza por enviar fótons em nossa direção. Por isso a alegria de encarar o brilho de uma estrela cadente em vez de um letreiro luminoso, ou o desapontamento de perceber que aquilo que admirávamos não era a lua, mas sim um poste de iluminação. As luzes, quando emitidas por pessoas comuns tentando apenas sobreviver da melhor forma e, entre um momento e outro, se permitem um instante de inspiração, genialidade e euforia carregam em si a mesma mágica.

Mas estariam esses vaga-lumes desaparecendo também? Daqui do futuro, do meio dessa distopia tecnológica na qual os fantasmas do fascismo voltaram a assombrar nossas mentes e corpos, na qual somos levados a acreditar que nossas identidades são limitadas e esculpidas em nossos hábitos de consumo, escondidos de uma ameaça invisível que nos tirou o direito aos nossos brilhos coletivos e incapazes de agir para impedir a fotografia superexposta das nossas riquezas sendo reduzidas a produtos, destruídas em fogo para transformar tudo em pasto e trocando a diversidade pela monocultura, por aquilo que é exclusivamente lucrativo, funcional. Daqui, dessa década que começa meio apocalíptica, na qual lidamos com ímpetos genocidas, com a banalização de mortes e da violência, diante de todas as incertezas do que vai vir e daquela vozinha dentro de nós que sempre nos diz que sim, ainda é possível piorar, estamos realmente fadados a ver se extinguirem os vagalumes, as abelhas e as mais sublimes expressões humanas?

Em seu ensaio, Pasolini nos lembra de que o estado de exceção no qual vivemos é a regra. E é justamente esse o contexto em que se faz mais importante procurar por esses brilhos, capturá-los em essência, refletir sua luz.

Os vaga-lumes não desapareceram, apenas migraram para outras partes, fugindo dos holofotes que os confundem: “Alguns estão bem perto de nós, eles nos roçam na escuridão; outros partiram para além do horizonte, tentando reformar em outro lugar sua comunidade, sua minoria, seu desejo partilhado”, diz Didi-Huberman.

Cabe a nós saber encontrá-los.

“voava a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! Tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a alegria”
– Guimarães Rosa, Primeiras Estórias

“o instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago”.  – Clarice Lispector, Água Viva

A SOBREVIVÊNCIA DOS VAGA-LUMES, DIDI-HUBERMAN

A partir do famoso artigo dos vaga-lumes, escrito por Pier Paolo Pasolini em 1975, Didi-Huberman defende a sobrevivência da experiência e da imagem, em um texto que representa uma grande guinada na história da arte. Sobrevivência dos vaga-lumes analisa a obra de Pasolini, estabelecendo conexões com o pensamento de outros intelectuais, especialmente o de Giorgio Agamben.

Os vaga-lumes representam as diversas formas de resistência da cultura, do pensamento e do corpo diante das luzes ofuscantes do poder da política, da mídia e da mercadoria.

A visão apocalíptica de Pasolini, expressa em sua afirmativa “não existem mais seres humanos”, e a de Agamben, segundo a qual o homem contemporâneo está “desprovido de sua experiência”, constituem um dos eixos da discussão estabelecida por Didi-Huberman.

O autor recorre ao trabalho de Walter Benjamim, “Imagem Dialética”, para demonstrar que a experiência ainda é possível no mundo contemporâneo. Compre aqui.

Esse texto foi originalmente publicado em 2020, em uma antiga newsletter que acabou dando origem à Migraciones.

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Natália Becattini

Sou jornalista, escritora e nômade digital. Atuo como Publisher Independente desde 2010 e sou especialista em Escrita Criativa, Estratégia de Conteúdo Digital e Jornalismo de Viagem. Sou co-criadora do renomado blog de viagens 360meridianos, LinkedIn Top Voice 2024, e autora da newsletter Migraciones. Nas redes sociais, atendo sempre pela arroba @natybecattini.

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